Não sou obrigada.

Em 5 set 2017

Não sou obrigada a aturar abusos em transporte público. Não sou obrigada conviver com o machismo. Não sou obrigada a tolerar cantadas na rua. Não sou obrigada muito menos a fechar os olhos para uma ejaculação não consentida e fora de hora, como a que aconteceu em São Paulo. Não sou obrigada. Não somos obrigadas.

Não sou obrigada a conviver com leis ultrapassadas escritas por homens. Não sou obrigada a ter medo de pegar taxi ou Uber sozinha. Não sou obrigada a ter medo de dirigir à noite sozinha. Não sou obrigada a desacelerar o passo quando percebo que estou sendo seguida. Não sou obrigada a fingir que uma desconhecida é uma amiga para despistar alguém que me persegue na rua.

Não sou obrigada a ganhar menos porque sou mulher. Não sou obrigada a fingir que não entendi a cantada para não perder o cargo. Não sou obrigada a ouvir que mulher tem que pilotar fogão. Não sou obrigada a ouvir que mulher não sabe dirigir. Não sou obrigada a não ter a mesma valorização intelectual de um homem.

Não sou obrigada a explicar o motivo de não querer ter filhos. Não sou obrigada a ter que largar minha profissão porque quero ter filhos. Não sou obrigada a ter um filho que não planejei. Não sou obrigada a educar o meu filho como um predador.

Não sou obrigada a ouvir que meu irmão pode tudo e eu não posso nada porque ele é homem e eu sou mulher. Não sou obrigada a não poder sentar de perna aberta ou falar palavrão porque mulher tem que ser delicada. Não sou obrigada a ser delicada. Não sou obrigada a obedecer a um homem. Não sou obrigada a não ser levada a sério em assuntos “tipicamente masculinos”, como futebol. Não sou obrigada a aturar uma sociedade patriarcal. Não sou obrigada a gostar de rosa. Não sou obrigada a acreditar que existem coisas de homem e coisas de mulher vivendo em mundos paralelos.

Não sou obrigada a ser chamada de encalhada e mal amada se for solteira. Não sou obrigada a ser chamada de piranha e vagabunda se tiver vários homens. Não sou obrigada a ser chamada de sapatão se quiser ter um relacionamento com uma mulher. Não sou obrigada a acreditar que homem bom é o pegador e mulher boa é a casta.

Não sou obrigada a andar sempre arrumada e impecável. Não sou obrigada a ser magra. Não sou obrigada a ser gostosa. Não sou obrigada a seguir um padrão. Não sou obrigada a ouvir que “a mulher tem que se dar ao respeito”.

Não sou obrigada a não poder usar saia curta ou decote porque vão mexer comigo na rua. Não sou obrigada a evitar passar por determinadas ruas à noite com medo de abuso sexual. Não sou obrigada a baixar a cabeça quando ouço uma cantada nojenta na rua. Não sou obrigada a viver com a ameaça constante de ser estuprada numa cidade violenta. Não sou obrigada a ouvir que a culpa é da mulher num caso de estupro. Não sou obrigada a me calar.

Não sou obrigada a ser taxada de feminista chata por publicar coisas deste tipo. Não sou obrigada a ouvir que as feministas odeiam os homens.

Não sou obrigada. Não somos obrigadas.

Mas infelizmente sou obrigada a admitir: como é difícil ser mulher neste mundo. É quase um ato de resistência.

#chegadeassedio

 

Imagem: Freepik

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